Karinah – Biografia

topositekarinahRelease por Bernardo Araujo

“O primeiro samba que eu fiz foi pra me salvar 
Quando a vida era por um triz eu deixei levar 
É coisa de Deus, é minha missão
A mão na viola e o pé na profissão 
E a cabeça feita por esse maravilhoso mundo cão”

Em seu disco de estreia, “Você merece samba”, de 2012, Karinah dizia, no sapatinho, com sua elegância habitual, a que vinha – e que tinha vindo para ficar. A menina moleca de Curitiba, que tinha mania de batucar em tudo e ouvia, encantada, uma tia cantar “Teco teco”, de Pereira Costa e Milton Villela (sucesso de Gal Costa, Ademilde Fonseca e Miriam Barucada, entre outros), logo entendeu que o samba era seu dom, como diria o mestre Wilson Das Neves.

“Minha infância foi subindo em árvores, batucando nas cadeiras, brincando com carrinhos de rolimã. Meu tio era caminhoneiro e sempre trazia fitas cassete; as minhas favoritas eram as músicas de Gonzaguinha e Clara Nunes”.

Morro de São Carlos e Portela, Rio, Pernambuco e Minas Gerais; por aí, já se tem uma boa pista da formação brasileira, no mais plural dos sentidos, da musicalidade da pequena Karinah. Quando tinha seis anos, a menina vestiu sua fantasia e foi a um baile de carnaval em um clube de Curitiba. Tudo absolutamente normal, não fosse a intervenção da tia (sempre ela!), que avisou aos músicos que a sobrinha prodígio sabia cantar músicas de Clara Nunes.

“Imagina uma criança de seis anos infartando? Pois foi quase o que me aconteceu”, exagera Karinah, às gargalhadas.

Depois de aplaudida na primeira performance – que gerou assunto entre os membros da família ao longo de todo o ano -, Karinah descobriu muito cedo, que seria cantora.

Mas não sem dificuldades. A situação em casa se complicou, ela perdeu parentes queridos, e sua mãe, sem apoio, foi para Joinville (SC), trabalhar em uma rede de supermercados, e deixou Karinah e seus dois irmãos em um colégio interno, onde o trio foi criado pelas freiras até a menina completar 13 anos, quando a mãe pôde buscá-los para que começassem nova vida no estado vizinho.

Os cinco anos de internato não atrapalharam a formação musical de Karinah: “Sempre cantei na capela do internato, nas principais festas do ano, como o Dia das Crianças e o Natal. O colégio tinha um orfanato anexo, e uma das minhas maiores alegrias era cantar para aquelas crianças”.

Já instalada em Joinville, Karinah foi levada pela mãe a participar de um festival de música em Praia de Barra Velha, no litoral catarinense. A música? “Madalena”, de Ivan Lins e Ronaldo Monteiro de Souza, clássico consagrado por Elis Regina. O resultado? Campeã! Para exercitar sua versatilidade, ela se inscreveu em outro concurso, este de música sertaneja, com “Evidências”, de Chitãozinho e Xororó. Adivinha se Karinah ganhou…

Aos 17 anos, não tinha mais jeito. Era música, música, música. Ela foi convidada a integrar uma banda pop, o que permitiu que conhecesse e se exercitasse em gêneros musicais diversos – sempre dando um jeito de enfiar “Morena de Angola”, sucesso de Clara Nunes composto por Chico Buarque, no repertório. Como acontece com grande parte dos cantores de sucesso do Brasil (de Emílio Santiago a Ana Carolina, de Djavan a Zélia Duncan), foi nos bailes da vida que Karinah lapidou seu gosto e seu estilo. Nos bailes, nos bares, nas boates, nos estúdios, gravando jingles, no teatro musical, onde pudesse soltar a voz e seguir em frente. Depois de conquistar Santa Catarina – com direito a mudança para Florianópolis -, em 2006 veio o primeiro gosto de reconhecimento nacional.

“Uma amiga me inscreveu no programa ‘Ídolos’, do SBT”, lembra ela. “Foi uma experiência muito bacana, aprendi a ter disciplina e a cuidar da voz, a ter postura no palco”.

Karinah aprendia enquanto o próprio reality show, que estava em sua primeira temporada, se definindo e aprimorando a cada passo da nova experiência. Nossa diva chegou à semifinal e saiu de lá como um rosto e uma voz conhecidos por todo o país.

De lá, Karinah ganhou o Brasil, apresentando-se por todos os cantos, abrindo uma turnê de Ivete Sangalo e dividindo palcos com nomes como O Rappa e Jota Quest.

Em 2012 veio “Você merece samba”, estreia em disco de uma cantora preparada, serena, à frente de um repertório (de inéditas, viva!) surpreendente, que representa o samba moderno sem se deixar limitar por ele, em canções como a citada “Primeiro samba” e outras delícias como “Samba do Djavan”, “Sem sapato alto” e “Vai embora tristeza”.

De lá para cá foram três anos definidores da presença de Karinah na cena musical brasileira. Antes de mais nada, ela resolveu que, sim, o Sul do Brasil seria sua casa, literal e musicalmente.

“Sou filha do mar, de Iemanjá, e por isso, moro na praia, em Balneário Camboriú. O Sul me abraçou e aqui a chapa é quente. O couro come e não alivia”, define ela.

Além de mudanças profissionais, como a troca de escritório, Karinah, claro, caiu na estrada onde pôde, na Varanda Elétrica do camarote Espresso 2222, no carnaval de Salvador (a convite de Nara, filha do mestre Gilberto Gil), no trio elétrico de Margareth Menezes, no Festival de Montreux, na Suíça… E tome bagagem.

“Gosto de ser ousada, mas antes faço meus laboratórios com a banda; se ficar bom a gente joga na roda”, diz ela, que elege entre seus compositores favoritos nomes como Arlindo Cruz, Rogê, Picolé, Serginho Meriti, Claudemir, Xande de Pilares, Nelson Rufino e Carlinhos Brown.

Seu novo single de trabalho, “Não mete essa, não”, gravado com direção musical de Izaías Marcelo, já rolando nas rádios de todo o país. Essa mulata é da cor do Brasil.